
Uma nova avaliação científica publicada, revela que apenas 1,2% das Áreas Importantes para Tubarões e Raias (Important Shark and Ray Areas - ISRAs) no Oceano Índico Ocidental (WIO) se encontram dentro de áreas de protecção total contra a pesca.
Por meio deste processo de investigação que analisou a rede de ISRAS, um processo científico coordenado pelo grupo de tubarões da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para identificar habitats críticos para estas espécies. Entre 2022 e 2023 foram identificadas 125 ISRAs no Oceano Índico Ocidental, cobrindo mais de 2,8 milhões de quilómetros quadrados, o equivalente a cerca de 10% das águas superficiais da região.
Estas áreas foram definidas com base em múltiplas fontes de informação, incluindo levantamentos visuais, monitoria em mercados de peixe, contributos de ciência cidadã e dados científicos adicionais. Essas ISRAs abrigam 104 espécies de tubarões, raias e quimeras (39% do total registado no WIO), com uns impressionantes 76% classificados como ameaçados de extinção pela Lista Vermelha da IUCN.
Apesar da sua relevância ecológica, apenas 7,1% das ISRAs apresentam alguma sobreposição com Áreas Marinhas Protegidas e cerca de 1,2% encontram-se dentro de zonas de protecção total onde a pesca é proibida. As protecções mais robustas concentram-se em locais como as Seychelles, o Arquipélago de Chagos e partes da costa de Moçambique, enquanto a maioria destas áreas permanece exposta à pressão humana.
Moçambique destaca-se como um país relevante na rede regional de ISRAs, com sete áreas identificadas ao longo da sua costa após décadas de investigação e monitoria. Algumas destas zonas sobrepõem-se a importantes áreas de conservação marinha, incluindo o Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto, o Parque Nacional de Maputo e a Área de Proteção Ambiental das Quirimbas do Norte.
Segundo especialistas como a Stela Fernando do Instituto Oceanográfico de Moçambique (InOM), o Rhett Bennett da Wildlife Conservation Society (WCS) e Jesse Cochran do grupo de especialistas de tubarões da IUCN, "a costa moçambicana é essencial para a reprodução e berçários de tubarões e raias, mas a pressão da pesca e de outras atividades humanas exige medidas de gestão eficazes que conciliem conservação e meios de subsistência das comunidades costeiras".
Para as organizações como a WCS, o estudo evidencia um desafio e uma oportunidade de proteger os habitats críticos para tubarões e raias, ao mesmo tempo que se apoia a subsistência das comunidades costeiras que dependem da pesca. A rede de ISRAs oferece um guia científico para governos e parceiros expandirem a conservação marinha, reforçarem a monitoria ecológica e cumprirem compromissos internacionais de biodiversidade. Mesmo com proteção limitada, estas áreas fornecem uma base clara para orientar decisões de gestão e garantir que os tubarões e raias continuem a desempenhar o seu papel nos ecossistemas marinhos.